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10 instruções para o pastor ou pastora que aconselha pessoas

O que leva uma pessoa a buscar o aconselhamento pastoral, ou algum tipo de aconselhamento? Sem dúvida porque está enfrentando conflitos intrapessoais ou interpessoais. Suas vivências estão marcadas por eventos que lhe causa algum tipo de sofrimento.

Diante disso o aconselhamento não é simplesmente sentar com alguém e falar, mas também não deve ser uma pura técnica sem nenhuma afinidade. Existem algumas coisas que precisamos observar.

Vejamos:

Primeiro: o início de um aconselhamento ou pedido de ajuda quer seja individual, familiar ou em grupos, é um momento delicado que exige atenção e um sensível manejo por parte do conselheiro. Os primeiros encontros são diferenciados do processo de aconselhamento em geral e podem necessitar de uma atenção especial do conselheiro para que se possa observar e ter certeza do que se apresenta pela pessoa que vem pedindo atenção, ajuda e cuidado. É preciso ter certeza do que o aconselhando vem pedir e precisamos ter muito cuidado para que não confundir a voz do que vem pedir ajuda com nosso próprio desejo de ajudar, pois podemos ir numa direção que vai suprir nossa vontade e não a daquele que veio solicitar ajuda.

Em segundo lugar, quando alguém vem trazer um problema a um/a pastor/a ou conselheiro/a, é preciso olhar essa pessoa de forma o mais integral possível, sabendo que o problema em si pode revelar uma vida inteira de problemas no trabalho, na família, no casamento ou mesmo tudo isso junto culminando nas relações com as outras pessoas na igreja ou grupo a que pertence. É de suma importância observar os objetivos e características deste período inicial de apresentação pessoal, pois são específicos, sendo: a investigação do histórico de vida da pessoa, a reflexão sobre o pedido de ajuda – o que está por trás da queixa manifesta (do problema que é apresentado primeiramente como razão de infelicidade ou mesmo incômodo) assim também como a definição de que se esse problema é da ordem do acompanhamento espiritual ou tem raízes emocionais, sendo mais propício para a indicação da psicoterapia ou mesmo um médico da clínica geral.

Em terceiro lugar, no primeiro encontro é preciso estabelecer um contato empático entre o/a conselheiro/a e a pessoa que vem buscar ajuda, basicamente porque o primeiro momento, desperta angústia e ansiedade, talvez pela artificialidade de expor conflitos a um estranho, mesmo sendo o/a pastor/a da igreja ou líder de grupos de afinidade (grupos pequenos, células etc). O trabalho empático do conselheiro depende, principalmente, de sua capacidade de alcançar uma visão de integralidade do ser humano e de seus problemas no geral, e ele (a) deverá manter essa mesma perspectiva ao longo do processo de aconselhamento. É preciso haver não só uma visão, mas também uma escuta do conjunto/sistema/sintomas.

Em quarto lugar, é preciso lembrar que esta ansiedade e angústia emergem, não apenas pelo fato de o/a conselheiro/a ser a pessoa a quem se pode recorrer nestes momentos, após tentativas fracassadas e ilusões perdidas de tentar resolver o problema sozinho, mas também por ser aquele ou aquela que “denunciará” seus aspectos disfuncionais, pois estar diante de um/a conselheiro/a ou mesmo um/a psicólogo/a é admitir que há um problema e isso é sempre muito difícil para qualquer um.

Com quinta instrução precisamos lembrar que os aspectos individuais e também do contexto das relações não devem ser desvalorizados, eles devem ser respeitados como tais, e vistos como integrantes da problemática geral. Muitas vezes quando uma pessoa vem pedir ajuda a um/a conselheiro/a ou pastor/a, ela não se dá conta de que sua problemática seja individual ou mesmo pertencente a um grupo. E também geralmente a família ou grupo não querem assumir sua participação na problemática desse alguém. É comum vermos grupos culparem uma única pessoa e usá-la como bode expiatório dos problemas conscientes e inconscientes daquele grupo. Frequentemente, a pessoa vem em busca de ajuda com a estrutura muito fragilizada e fragmentada, dificultando o entendimento do real problema para o conselheiro, se é realmente individual ou aquele problema pertence a um grupo ou mesmo é da circulação tóxica da família a que pertence, sendo difícil criar uma demanda puramente do indivíduo ou familiar/conjunta.

Em sexto lugar, é preciso entender que falar daquilo que incomoda nos primeiros encontros pode não significar o real problema (por mais que a fala demonstre muita coisa) e muitos/as conselheiros/as inexperientes são induzidos a focar somente as perturbações e a problemática falada e repetida nos primeiros encontros, mas o verdadeiro diagnóstico vai além do dito, pois pode segundo a experiência do/a conselheiro/a, pode ser somente o início de um desenrolar de alguma problemática mais profunda.

Como sétima instrução para os primeiros procedimentos destaco que o/a conselheiro/a pode ajudar a pessoas que estejam com dificuldade de transformar o pedido de ajuda em uma real demanda para se iniciar um tratamento, e mesmo que haja necessidade de encaminhamento para outro profissional, o/a conselheiro/a tem um papel muito importante, pois talvez essa pessoa que pede ajuda sem saber nomear seu problema pode ir se arrastando muito mais tempo na vida sem tomar uma decisão de tratamento.

A oitava instrução é uma continuidade da sétima. Diante disso, da dificuldade que as pessoas tem em transformar o pedido de ajuda em uma real via de tratamento, o reconhecimento do sofrimento pode levar pessoas a buscar ajuda e seguramente a começar a pensar e desejar mudanças. Porém, muitas vezes ir ao médico/a ou ao psicólogo/a pode ser muito ameaçador e perturbador, demonstrando que esse papel de primeiro acolhimento e conscientização do/a conselheiro/a é de suma importância.

Em nono lugar, é preciso compreender que diante do incompreensível, o sujeito busca um interlocutor, alguém que o interprete e diagnostique. Trata-se, portanto, neste período de avaliação, de elucidar a “queixa” e possibilitar que se construa a demanda. A partir desta reflexão, nossa prática, tanto individualmente quanto com famílias, nos deixa concluir que é preciso haver esta transformação/mudança da queixa à demanda, para que tanto o paciente individual quanto a família se comprometam com o tratamento.

Em décimo e último lugar, Entende-se que em primeira mão o/a conselheiro/a pode ter acesso a muitas pessoas que os psicoterapeutas não encontram, pois muitas vezes as pessoas começam a criar motivos para não ir em direção ao seu próprio tratamento. Por isso, o/a conselheiro/a deve explicitar estas dificuldades à pessoa que o procura pedindo ajuda, ressaltando que as mudanças dependem deles mesmos, da motivação individual ou familiar e do que é denominado muitas vezes de “sabotagem encoberta” e procrastinação.

Espero que estas dicas e instruções possam ajudar você no seu ministério pastoral de cuidado para com pessoas.

Auriciene Lidório
Psicóloga e Teóloga
Visite: www.institutoeducare.org

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