Recursos para pastores

2 conselhos a respeito da sua vida e sua salvação

Quantas vezes tenho eu mesmo lutado contra o fato de gostar mais de trabalhar para Deus do que de estar com ele em comunhão?

Quantas vezes eu mesmo tenho constatado que a sequidão no campo ministerial traz uma dor absolutamente profunda? Quantas vezes em minha sala pastoras e pastores, missionárias e missionários lamentam ter se entregado ao ministério de forma tão forte, ter trabalhando tanto para Deus e não ter experimentado intimidade com o Senhor?

Em todos estes anos de ministério, aprendi, a duras penas, que nossa salvação precisa desembocar em santificação e essa santificação tem a ver com intimidade para com o Senhor, mas sobretudo, a maneira como a vida é santificada não é um êxtase num monte brilhante (pode até ter momentos assim), mas via de regra é feita com o pé no chão, no dia a dia da lida diária.

O apóstolo dos gentios falava o seguinte em Romanos:

“Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por intermédio de quem obtivemos igualmente acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes; e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado. ” (Romanos 5.1-5).

Ficam sempre algumas perguntas:

Porque Deus perde tempo conosco? Porque o Senhor gasta do seu poder e tempo com vidas como a minha e a sua?

Sou salvo! E daí?! O que fazemos com isso? Que é a salvação de verdade, apenas uma libertação de nossas almas?

Porque muitos de nós estão sempre entristecidos e parecem andando sempre dando passos para trás? Porque parece que as dificuldades são sempre repetidas e nunca vão embora?

O que a salvação – que é algo que Jesus já fez e pagou todo o preço na cruz – tem a ver com minha vida e meus sofrimentos?

Vamos analisar alguns termos nestes versículos de Romanos 5.

v.1 – Justificados – o termo explicitamente implica em que Deus, apesar de quem somos ou do que fizemos nos considera JUSTOS – não baseado em nossa própria justiça – mas o termo aqui sugere uma IMPUTAÇÃO, ou seja, algo que é feito em nós e não que nós fazemos os participamos – antes, Paulo afirma categoricamente que Jesus “foi entregue por causa de nossas transgressões (4.25). Éramos transgressores e aqueles que transgridem precisam pagar o preço pelos seus erros – Cristo morreu e ressuscitou justamente para fazer isso por nós – nos JUSTIFICAR, imputar, colocar sobre nós uma justiça que não tínhamos (mas que ele tem!) e então a partir disso dizer pra Deus que o preço pela transgressão já havia sido pago, somos então JUSTIFICADOS.

Mediante a fé – ou seja é procedente da fé – se procede da fé é então obras? O que é a fé que justifica? Como ela se dá em nós?

Paulo fala aos Efésios que a salvação é pela graça que procede da fé – mas explica concretamente: a fé é um DOM de Deus, e não vem de nós – assim como a justificação que é algo feito pelo Senhor Jesus na cruz, a fé, que é o instrumento pelo qual eu tomo posse da justificação me tornando salvo em Cristo Jesus é um DOM, é Deus quem coloca em meu coração, não há merecimento – eu respondo à fé que ele coloca em meu coração, mas a glória é de Deus e não minha.

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé, e isto não vem de vós é dom de Deus, não de obras para que ninguém se glorie. ” (Efésios 2.8,9)

Temos paz com Deus – esse é o fruto da justiça imputada sobre nós – uma tranqüilidade de consciência.

Literalmente essa paz significa SERENIDADE DE CONSCIÊNCIA, uma consciência tranqüila.

Existem dois tipos de pessoas que também possuem esta serenidade de consciência:

1) Os fariseus, que são HIPÓCRITAS, ou seja, pessoas que confiam em si mesmos achando que estão fazendo a obra de Deus acham que pelas suas muitas obras, culto, louvor, dízimos, gordas ofertas, fidelidade nos cultos etc podem então comparar-se àqueles aos quais Deus justifica. Estes estão enganando seus próprios corações e caminhando para a destruição.

2) Os pecadores insensíveis, pessoas que estão intoxicados pelos prazeres produzidos pelos seus vícios e não sentem necessidade nenhuma de paz e, portanto, nem se enganam, mas são entorpecidos pelo próprio pecado, achando-se justificados.

Uma pessoa, porém, que se vê abalada pelo senso de pecado, que é desperta para prestar conta de sua vida, que vive em completo desassossego por causa de seus erros e pecados, é nesse que realmente o Espírito Santo tem terreno para trabalhar e produzir esta paz com Deus, uma serenidade que não se dá por causa de nossas fortalezas doutrinárias ou emocionais, mas sim porque o Espírito comunica isso a nós através de Cristo, do seu sacrifício.

v.2 – acesso – esta palavra é chave para entendermos uma coisa muito profunda deste mistério da Justificação de Deus:

1. a nossa salvação tem origem em Cristo – por intermédio de quem (Jesus) obtivemos acesso a esta graça.
2. a continuação da mesma graça é que nos dá acesso à firmeza e segurança da mesma salvação – na qual estamos firmes.

Esperança da glória de Deus – a justificação traz para nós a esperança da glória – antes estávamos aquém da glória de Deus.

Todos pecaram e carecem da glória de Deus (3.23)
Agora tem esperança na glória de Deus.

Ao contrário dos ensinamentos modernos que nos mostram que a verdadeira vitória é viver uma vida de pureza moral apenas, com práticas, usos, costumes etc e que ao contrário não há certeza de nada no futuro a não ser que a mantenhamos por nossos esforços dentro dos padrões morais estabelecidos – Paulo aqui afirma que a glória de Deus é nossa esperança, de sermos participantes de sua natureza – veja também em II Pedro 1.4; I João 3.2.

Muitos hoje dizem que a esperança é a última que morre – esperança que morre não é esperança é incerteza – esperança é algo que nunca morre, esperança é transformada em certeza da vida e da vitória, esperança da glória que nos está proposta – ela pode até passar, como Paulo diz em Coríntios, mas passa quando chegar a concretização da esperança.

v.3 – e não somente isso – aqui Paulo então sai da certeza da Justificação pela fé, da nossa salvação em Cristo para nos mostrar como é desenvolvida esta salvação:

1. a salvação começa na cruz, mas não tem o seu fim lá
2. a salvação é apresentada a nós pela fé no dia de nossa conversão, mas tudo isso é o início e não o fim da vontade de Deus
3. a salvação de nossas almas não é o objetivo principal de Deus

A salvação precisa desembocar em santificação, porque senão será atrofiada e, portanto, deixará de ser salvação para ser apenas uma semente que foi lançada num terreno com pouco profundidade, vai secar, murchar e morrer.

Como isso é feito?

É aí que vem a parte que geralmente temos dificuldades:

1. Tribulações – este é o primeiro item que Deus se utiliza para desenvolver nossa salvação- a tribulação produz paciência (perseverança).

As tribulações, ou provações como são usadas em outros lugares é que vai produzir o primeiro passo no desenvolvimento de nossa salvação – a paciência.

Tribulação produz o que em nós?

Murmuração; desconfiança; medo; dor; choro; rancor; incertezas; etc

Como é que a tribulação pode então produzir santificação?

Calvino diz que “quando aquela submissão interior que é infundida pelo Espírito de Deus; e aquela consolação que é comunicada pelo mesmo Espírito, assume o lugar de nossa obstinação, então as tribulações, as quais, na teimosia, só podem produzir indignação e descontentamento, tornam-se meios de gerar paciência” (João Calvino, Romanos, pagina 179).

Quando a obediência toma lugar em nossos corações e então anulamos nossa vontade para fazer a vontade de Cristo; quando o morrer para nós é lucro; quando ouvir a voz do Espírito ao invés da voz do mundo é o que ansiamos então a tribulação é fonte de desenvolvimento e não de tristeza em nós.

2. Paciência (perseverança) – que tipo de paciência?

Quando nós por causa da proteção garantida de Deus, perante as tribulações, mesmo no meio de muito sofrimento e dor, conseguimos – confiados no seu auxílio – suplantar as dificuldades.

Quando há obediência a tribulação produzirá um tipo de paciência, não uma letargia que faz com que o órgão não sinta dor ou queimor, mas uma paciência que é prova do amor divino em nossas vidas, mostrando que não somos como os fariseus ou pecadores, insensíveis, mas sensibilizados pela atuação do Espírito Santo, perante tribulações que nos assaltam permanecemos firmes, o que vai gerar em nós a experiência.

3. Experiência – conhecimento experimental e não apenas um conhecimento intelectual.

A paciência gera em nós experiência que na verdade deveria ter sido traduzida como MATURIDADE – o passar pelas tribulações sem que haja submissão a vontade de Deus não produzirá maturidade e sim o contrário, pois não haverá paciência que gera a experiência.

4. Esperança – uma certeza que não se confunde com a dúvida, pois é uma certeza que vem de Deus.

Esta certeza que nunca estaremos sem a graça de Deus é gerada pela tribulação assumida pela submissão do crente ao Espírito Santo que por sua vez produz a paciência que antecipa a maturidade – no meio de tudo isso, o que nos manteve firme é a certeza de que a Graça de Deus está conosco – “Deus não deixa vir sobre nós tentação (provação, tribulação) que não temos condições de suportar” (Paulo aos coríntios) justamente porque a esperança de que a Graça de Deus estará sempre conosco.

Então podemos aprender que:

“As boas coisas que Deus preparou para aqueles que o adoram estão ocultas dos ouvidos, dos olhos e das mentes dos homens e tão somente o Espírito é quem pode revelá-las” (João Calvino, Romanos, página 181).

O “amor de Deus é derramado em nossos corações” (v.5) justamente para fazer isso – para nos fazer crescer, dar maturidade à nossa existência e nos mostrar o verdadeiro fruto do Espírito que não pode ser visto pelos olhos, percebido pelos ouvidos ou experimentado pela nossa mente sem que antes nos seja revelado pelo Espírito Santo – e ele o faz através da nossa vida com Deus, através das muitas tribulações e provações que nos sobrevém com o intuito de nos fazer crescer.

O objetivo último de Deus em nossas vidas ao nos dar tão grande salvação é justamente trazer sobre nós maturidade que é o crescimento de nossas vidas em pessoas mais parecidas com Jesus Cristo.

Você então pode estar perguntando: quais são os dois conselhos afinal?

Primeiro – não deixe sua vida de fé com Deus e em Deus estagnada, mas cresça em intimidade com ele, sabendo que ele deseja muito mais estar conosco do que nos ver trabalhando para ele.

Segundo – não menospreze as tribulações que cercam sua vida – aprenda a ser melhor com elas; não deixe simplesmente que o sofrimento passe por você (ele é inevitável!), mas aprenda com ele.

A Deus toda glória!

Gedeon Lidório

guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments