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Anacronismo semântico

Anacronismo semântico

Eu vou discorrer, nesta minha participação sobre o anacronismo semântico, que vejo ocorrer de forma significativa no dia-a-dia da igreja de hoje.

Ressalto que entendo serem fatos corriqueiros, cometidos em exegeses e interpretações bíblicas por seminaristas, pregadores e até pastores experientes.

Inicialmente, vamos procurar compreender a terminologia:

O que é uma falácia? Falácia é um substantivo feminino que significa erro, engano ou falsidade. Resumindo, é se utilizar de uma fala duvidosa e falsa para se atingir um resultado desejado.

O anacronismo consiste em utilizar os conceitos e ideias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico.

A semântica é o ramo da linguística que estuda os significados e/ou sentido dos vocábulos da língua. Do grego, a palavra semântica (semantiká) significa “sinal”. De acordo com duas vertentes, “sincrônica” e “diacrônica”, a semântica é dividida em:

Semântica Descritiva: denominada de semântica sincrônica, essa classificação indica o estudo da significação das palavras na atualidade.

Semântica Histórica: denominada de semântica diacrônica, se encarrega de estudar o significado das palavras em determinado espaço de tempo. A fim de conhecer as palavras apropriadas para empregá-las em determinados discursos, recorremos à semântica, ou seja, a significação dos termos.

Anacronismo semântico, acontece quando o interpretador comete o erro de transportar um significado atual para um vocábulo que não tinha esse significado no tempo em que foi escrito. Este erro foi cometido pelos pais da igreja ao dizer que o vocábulo ‘επίσκοπος se referia a um bispo, que seria um pastor que cuidaria de várias igrejas locais. O vocábulo δύναμις que significa poder ou milagre também gerou a palavra dinamite, sendo óbvio que esse não era o seu contexto.

Vimos que é fácil conseguir extrair ideias não legítimas de um texto bíblico mesmo que acidentalmente, mas vimos também que falácias são enganos, isto é, não devemos usar uma das artimanhas de Satanás para atingirmos uma finalidade.

Desta forma, sincronizar eventos e identificar anacronismos de quaisquer espécies exige, antes de tudo, acesso às fontes: livros, manuscritos, códices, mapas, relações pessoais, leis, costumes, etc. O trabalho de pesquisa e escrita da história exige tempo e dedicação, mas também recursos e boas relações pessoais, tanto para estabelecer uma interpretação particular quanto para ter acesso a outros acervos, civis e eclesiásticos. Mais do que isso, graças ao acesso às fontes e a operações metodológicas específicas o autor pode empreender uma exegese bíblica que inclua a análise lexical, histórica, teológica, bem como a análise crítica do texto e de seu gênero literário.

Tudo isso leva o exegeta a fazer um estudo mais amplo e profundo do texto, deixando de lado aquilo que se convencionou chamar de “exegese”, ou seja, uma análise costumeira e muitas vezes superficial do texto bíblico. Ao adotar os passos descritos para fazer a exegese do texto sagrado, é possível aprender, em poucos meses, muito mais sobre as passagens selecionadas do que se aprenderia em anos de exegese superficial, sem a atenção e o cuidado devidos. Numa época em que a pregação e o ensino da Palavra têm sido tão empobrecidos, reduzindo-se a textos-chave, lugares comuns e análises superficiais do texto bíblico, o autor poderá demonstrar a possibilidade de se resgatar a verdadeira exegese, uma exegese que leva em conta a necessidade de se fazer uma análise séria e profunda da Palavra de Deus.

Concluindo, sem nenhum temor de proceder a um mal julgamento ou à criação de uma falácia: se me dedicar a dar exemplos da incidência de anacronismos semânticos em situações que vivi e presenciei, em diferentes ambientes, eu teria que usar de um bom tempo e de muito papel!

Jose Eustaquio Dourado

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