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Deixando o ministério pastoral

Deixando o ministério pastoral

Gostaria de falar com vocês sobre esse tema: deixando o ministério pastoral.

A serviço dos anjos com asas feridas Deus envia os anjos sem asas, mas portadores de empatia e compreensão. Cuida de ti mesmo e da doutrina. – 1 Tm 4.16

Dias atrás, mais um amigo deixou o ministério pastoral. Nós nos encontramos e a conversa foi muito triste. Vi nele um “anjo com asas feridas”. Em meio a nossa prosa ele perguntou se eu alguma vez também já pensei em desistir. Como fui pego de surpresa pelo questionamento; respondendo a pergunta dele, o silêncio falou alto junto com as lágrimas que rolaram em nossas faces. E a prosa continuou…

Um amigo

Esse amigo, agora ex-pastor, sempre foi um referencial para mim. Devido a esse fator eu passei a refletir sobre o que tem levado tantos homens e mulheres de Deus ao abandono do ministério para o qual tanto se prepararam. Na raiz da desistência são vários os fatores, porém acredito que um deles seja o excesso de cuidado com os outros, mas descuido de si mesmo. Pode parecer um ato muito piedoso, o se desgastar no ministério, contudo, Paulo alertou Timóteo contra isso. A seu jovem discípulo ele escreveu: “Cuida de ti mesmo e da doutrina.” – 1 Tm 4.16.

Interpretando

Em uma interpretação livre eu penso que a doutrina é o que está em Mateus 22:34, 40. – acredito que Timóteo amava a Deus sobre todas as coisas, amava ao próximo também, mas negligenciava o amar e cuidar de si mesmo. O descuido de si mesmo o levou a entrar em uma crise vocacional tão aguda que Paulo teve que fazê-lo rememorar a força de seu chamado. O pastor mais velho e experiente disse ao mais jovem:

“Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações noite e dia; Desejando muito ver-te, lembrando-me das tuas lágrimas, para me encher de gozo; Trazendo à memória a fé não fingida que em ti há, a qual habitou primeiro em tua avó Loide, e em tua mãe Eunice, e estou certo de que também habita em ti. Por cujo motivo te lembro que despertes o dom de Deus que existe em ti pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos deu o espírito de temor, mas de fortaleza, e de amor, e de moderação. – 2 Timóteo 1:3-7”

Paulo e Timóteo

Segundo a tradição cristã, o apóstolo Paulo consagrou Timóteo como pastor de Éfeso no ano 65 d.C. Sua segunda epístola foi escrita no ano 68 d.C, portanto, a sua crise ministerial teria ocorrido três anos após sua posse a frente da Igreja. Ele superou-a, pois de “acordo com o testemunho de Nicéfero, o pastor Timóteo foi martirizado durante o reinado de Domiciano, no ano 96 d.C., em Éfeso¹.

Há muitos “Timóteos” em crises ministeriais, na atualidade são altas e crescentes as estatísticas de abandono do ministério. Penso que na busca de diminuir tais estatísticas, além de o cuidado de si mesmo por parte do obreiro, é preciso existir um eficaz ministério voltado para o integral “cuidado de quem cuida.” O ministério pastoral ao mesmo tempo em que é exercido entre pessoas, e para pessoas, é também muito solitário. Raramente há verdadeira comunhão, companheirismo, parceria de julgo, entre os colegas pastores, isso vale tanto para homens como para mulheres.

Momentos difíceis

Sinto que nos falta algo semelhante ao que Paulo fez com Timóteo. Eu e muitos outros colegas pastores e pastoras, muitas vezes passamos por momentos em que necessitamos de ouvir de outros colegas, bispos, bispas, lideranças…, algo diferente das frias e inquisidoras perguntas relativas ás estatísticas ministeriais que envolvem números e cifras. Para nossa saúde emocional e ministerial precisamos de ouvir algo que se inicie assim:

“Tu, pois, filho meu…”

Paulo, autor da supracitada frase que inicia profundos aconselhamentos, embora grande apóstolo, líder, pastor, também sentiu de perto a necessidade de outra pessoa que lhe ajudasse a superar seus momentos difíceis. Em relação a isso ele escreveu:

“Grande é a minha franqueza para convosco, e muito me glorio a respeito de vós; estou cheio de consolação, transbordo de gozo em todas as nossas tribulações. Porque, mesmo quando chegamos à Macedônia, a nossa carne não teve repouso algum; antes em tudo fomos atribulados: por fora combates, temores por dentro. Mas Deus, que consola os abatidos, nos consolou com a vinda de Tito; e não somente com a sua vinda, mas também pela consolação com que foi consolado a vosso respeito, enquanto nos referia as vossas saudações, o vosso pranto, o vosso zelo por mim, de modo que ainda mais me regozijei.” – II Cor. 7 4 a 7

Casos de solidão

A meu ver, a raiz dos crescentes casos de solidão e depressão pastoral está na falta de compreender que “Deus não manda criaturas angélicas para consolar o “anjo da Igreja”, mas sim pessoas humanas. Indubitavelmente, a fonte de consolação é Divina, mas o instrumento por onde a consolação flui é humano. Paulo a Deus adorou e aos cristãos de Corinto escreveu dizendo: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, que nos consola em todas as nossas tribulações, para que, com a consolação que recebemos de Deus, possamos consolar os que estão passando por tribulações.” – 2 Coríntios 1:3,4

O texto acima deixa claro que a misericórdia e consolação vêm de Deus, mas elas chegam aos “anjos de asas feridas” por meio dos “anjos” que são sem asas, mas portam empatia e compreensão. São pessoas iguais cuidando de seus iguais.”

José do Carmo da Silva
Pastor da Igreja Metodista em Marcos Roberto
Campo Grande – MS
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¹EUSÉBIO DE CESAREIA. História Eclesiástica. Patrística 15. São Paulo: Paulus, 2000.

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Gedeon LidórioDENISON FIGUEIREDODiego Alves Recent comment authors
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DENISON FIGUEIREDO
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DENISON FIGUEIREDO

Que texto inspirado por Deus!

Diego Alves
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Diego Alves

Que texto incrível… Em dias como os nossos, chega como um sopro suave para trazer renovo! Parabéns pastores… O site é excelente!