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Teologia da Missão Integral: Uma Resposta

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O texto “Calvino, Wesley, Spurgeon e o evangelho social da TMI” do Pr. Renato Vargens é interessante e merece alguns poucos comentários. O que está em negrito é de autoria dele e a minha resposta está logo a seguir.

O pessoal do evangelho social precisa entender que cuidar dos pobres sem a pregação do evangelho é mera filantropia.

Concordo com essa afirmação. Todavia, ela induz ao erro. O erro a que ela induz é fazer o leitor ignorante pensar que as pessoas que falam do social não pregam o evangelho. Isso é uma mentira deslavada. Eu não conheço um pastor da TMI que prega que a missão da igreja é apenas o social. Até porque esse pastor morreria de fome, pois as igrejas da MI geralmente são pequenas e pobres.

Outra coisa estimado pastor Renato: não existe evangelho social. Essa nomenclatura é antiga e não é mais usada. Não se adjetiva o evangelho. Ou é o evangelho ou não é nada. Não existe evangelho da prosperidade também. Isso me parece já ensinava o velho e bom apóstolo Paulo. O termo evangelho social foi cunhado nos anos 1900 por um pregador batista digno e decente chamado Walter Rauschenbusch, homem piedoso e amado por sua igreja, que cometeu o “pecado” de se preocupar com os maus tratos que os membros de sua igreja passavam nas fábricas de Nova Iorque.

Ademais, a missão prioritária da igreja é a salvação do perdido através da pregação do evangelho de Cristo.

A missão prioritária da igreja não é a salvação do perdido e nem da perdida. Essa não é e nunca foi a nossa motivação. O articulista deve saber a primeira pergunta do Breve Catecismo de Westminster: “Qual é o fim principal do homem [ser humano]?” A resposta: “O fim principal do homem [ser humano] é glorificar a Deus, e gozá-lo para sempre”. Assim sendo, a nossa tarefa é glorificar a Deus na realização de todas as nossas ações, incluindo missões, evangelismo, discipulado, etc. Quando a nossa motivação está na salvação do perdido a tendência é glorificar a Deus somente se o perdido se salvar. Quando a nossa motivação é a glória de Deus o resultado da ação foge das nossas mãos. Quem quiser ler mais sobre isso veja J. I. Packer, Evangelização e a soberania de Deus. Alias, essa foi a discussão entre Packer e Donald McGavran, do Seminário Fuller.

Fazer ação social sem isso é a mesma coisa que ver um homem caminhando em direção a um precipício e lhe presentear com um prato de comida.

Essa é mais uma falácia. É lógico que qualquer ser humano com um pouco de inteligência vendo um membro da raça humana caminhando em direção a um abismo o avisaria do perigo eminente. Apenas um sádico não tomaria essa atitude. E a propósito, nem precisa ser um cristão para fazer isso. Basta ser um ser humano decente e honrado.

Por outro lado, se alguém estivesse indo a um culto e visse um homem deitado à beira do caminho, tendo sido esfaqueado por malfeitores que lhe roubaram o dinheiro e documentos, esse crente pararia o seu carro, pegaria a sua Bíblia e leria o texto de João 3.16, cantaria um hino e depois faria uma explicação detalhada do plano da salvação?

Ou seja, as duas situações são ridículas.

O que determina a ação do cristão não é a sua agenda, mas sim o outro. Se o outro está indo a um abismo, você o avisa do perigo. Se o outro está se esvaindo em sangue, você o leva ao hospital. Ou não?

Ora, ao afirmar isso não estou querendo dizer que a igreja não deva fazer nenhum tipo de ação social, mesmo porque, a história nos mostra homens de Deus agindo e intervindo na vida de inúmeros pobres.

Certo, beleza. Mais vago impossível. Alias, não somente homens, mas mulheres, jovens e até mesmo adolescentes e crianças. Afinal, o sacerdócio é universal de todos os cristãos e não somente dos homens.

Calvino por exemplo ao chegar a Genebra encontrou graves problemas sociais. Havia pobreza extrema, agravada por impostos pesados. Os trabalhadores eram oprimidos por baixos salários e jornadas extensas de trabalho. O analfabetismo era quase que absoluto.  O Álcool era um problema grave e a prostituição caracterizava uma sociedade escrava da promiscuidade. Além disso, o vício do jogo de cartas, o adultério, a falta de educação e todo tipo de pecado caracterizava a Genebra pré-Calvino. Contudo, ao chegar em Genebra o reformador Francês através da pregação evangelho produziu aquilo que nada nem ninguém poderia produzir, isto é conversão dos genebrinos. Juntamente a isso, Calvino defendeu os pobres e fracos contra os ricos e poderosos, promoveu educação, defendeu que o hospital geral fundado por Farel desse assistência gratuita aos pobres, órfãos e viúvas, criou a primeira escola primária na Europa e pregou contra a exploração financeira.

Isso somente prova a tese da TMI. Correto?

Já o pregador metodista John Wesley fez muito pelo seu país. Em décadas de ministério, Wesley  foi usado poderosamente por Deus levando milhares de pessoas aos pés de Cristo. Esse santo homem, junto a outros como George Whithefield, produziu um grande avivamento na Inglaterra. O poder do evangelho afetou positivamente toda a sociedade, produzindo a abolição dos escravos, reformas educacionais, reformas no sistema prisional, reformas nas questões trabalhistas e muito mais.

Isso somente prova a tese da TMI. Correto?

O que falar então do maior pregador inglês do século XIX?  

Pois bem, Charles Haddon Spurgeon, criou uma casa com vistas ao cuidado das víuvas pobres e necessitadas. Organizou um orfanato para meninos e outro para meninas. Abriu um fundo de ajuda aos necessitados da igreja. Estabeleceu uma associação de benfeitoras, e uma sociedade para ajudar moças pobres grávidas como também abriu diversas  obras de cunho assistencial com o fim de ajudar os necessitados de Londres, contudo, apesar disso, Poucos preocuparam-se tanto com o destino eterno dos homens como o príncipe dos Pregadores. A história nos mostra que milhares de pessoas chegaram a Cristo através da pregação desse grande homem de Deus.

Isso somente prova a tese da TMI. Correto?

Caro leitor, Calvino, Wesley e Spurgeon fizeram muito pelos pobres e oprimidos, contudo, nenhum deles considerou a ação social mais importante que a pregação do Evangelho. Todos três pregaram Cristo, a necessidade do arrependimento, perdão dos pecados e salvação da ira vindoura.

Isso é uma ilação. O autor não fez estudos aprofundados sobre esses pregadores citados. Se o autor ler, por exemplo, os sermões de Calvino no livro de Amós ficará extremamente consternado ao ver a ênfase de Calvino no social, na justiça que deveria ser praticada pelos membros de sua igreja. Eu gastei um mês no Seminário Calvin (onde está uma das maiores biblioteca sobre Calvino no mundo) estudando sobre a teologia de Calvino e os pobres. Se alguém pregar, hoje, os sermões de Calvino a respeito dos pobres em qualquer igreja presbiteriana do Brasil será despojado do ministério.

Diante do exposto fico pensando naqueles que defendem o evangelho social sem contudo se disporem a pregar o evangelho. Outro dia ouvi uma pessoa relatando que tinha ajudado uma família construindo sua casa, dando-lhe gêneros alimentícios e roupas sem contudo lhes ter anunciado a Cristo. Quando indagada do que porque não o fizera, a pessoa respondeu dizendo: “Precisa?” Ora, vamos combinar uma coisa? Que “cristianismo” é esse que não proclama Cristo? Que missão é essa que não se preocupa com o destino eterno dos homens? Que ação é essa que não fala do que nos é mais caro, isto é, Cristo nosso Senhor?

Apanha um fato isolado e faz dele um pampeiro. Essa pessoa mencionada é mesmo uma cristã autêntica, nascida de novo, comprometida com Jesus ou apenas uma frequentadora de igreja como os milhares que temos hoje nas igrejas evangélicas?

Mas digamos que essa pessoa seja cristã. Ao fazer o bem àquela família ela estava ao seu modo demonstrando o amor de Deus porque somente quem tem o amor de Deus pode ser tão altruísta. Esse amor de Deus demonstrado em obras não é em vão, pois foi o próprio Jesus que nos ensinou para brilharmos a nossa luz diante das pessoas para que elas pudessem e ver [as obras] e… voilá… o Pai ser glorificado.

Hoje, as igrejas querem glorificar a Deus dentro dos templos. Deus, ao contrário, quer ser glorificado fora do templo.

Ademais, tem outro aspecto aqui que precisa ser ressaltado. Nem todos os crentes tem o dom da evangelização. Segundo Peter Wagner, que foi o grande guru do crescimento de igreja e de priorizar a evangelização como tarefa principal, somente 10% dos membros de uma igreja possuem esse dom. Todavia, os pastores, e me parece ser o caso do articulista estudado, querem que todos os crentes saiam pelo mundo para evangelizar. Isso é febril. Jamais acontecerá. Faça uma pesquisa em qualquer igreja evangélica e vejam quantos evangelizam seus parentes, amigos e colegas?

Pastores gostam de acabrunhar os crentes pedindo que eles evangelizem porque querem que suas igrejas cresçam. Peça, ao invés disso, que seus crentes sejam honestos, cumpridores de seus deveres, bons cristãos na empresa, solidários e verá que muitos se interessaram pelo evangelho e as portas se abriram para o Salvador.

Prezado amigo, a missão prioritária da IGREJA é pregar o evangelho. Não podemos esquecer que sem Cristo os homens estão condenados ao inferno e que cabe a igreja proclamar a bendita notícia que através do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, os homens podem ser salvos.

Já expliquei acima que não é.

Ninguém está esquecendo isso e se alguém está esquecendo isso é porque nunca soube disso e se não soube disso não pode esquecer.

Isto posto, concluo:

Quer ajudar o pobre? O Faça. Quer lutar pelos que sofrem as agruras de uma vida dura? Aleluia! Quer intervir em lixões, prostíbulos, guetos e lugares de extrema miséria? Faça isso para a glória de Deus! Agora, por favor não faça da sua intervenção social uma agenda política e ideológica desprovida da mensagem do evangelho. Pelo contrário, proclame Jesus e sua cruz, até porque, a única mensagem capaz de transformar a vida do pecador e por conseguinte da sociedade é Cristo.

Não é a mensagem que transforma a sociedade. Quem transforma a vida das pessoas é Cristo. O evangelho é Cristo e não uma mensagem. A mensagem pode ser deturpada, modificada. Mas não o Cristo revelado nas Escrituras. Ele é o poder de Deus. A nossa missão no mundo é glorificar a Deus e glorificamos a Deus cumprindo com sua missão redentora em palavras e obras. Foi para isso que Cristo nos conquistou: “para nos remir de toda a iniquidade, e purificar para si um povo seu especial, zeloso de boas obras” (Tito 2.14). Obras que estão preparadas antes da fundação do mundo. Fomos criados para isso (Ef 2.8-10).

É o que penso, é o que digo!
Renato Vargens

Pense mesmo estimado colega, mas estude também. Não pegue casos isolados e faça disso uma doutrina. Isso não leva a nada e causa mais divisões no meio da igreja já tão polarizada. A igreja brasileira está tão sem credibilidade aos olhos da sociedade e não iremos recuperá-la com palavras apenas, mas sim também com as nossas boas ações em direção a um mundo que jaz no maligno. A nós nos cabe ser o que Cristo profetizou que seríamos: sal da terra e luz do mundo.

ACBarro

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Ivan NunesHebert BorgesElias FerreiraJorgeLuiz Carlos Ramops Recent comment authors
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Ivan Nunes
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Ivan Nunes

Interessante pois que, Wesley e o metodismo sempre tiveram seus atos aliados ao anúncio do evangelho, evangelho mais vivido e praticado do que falado.

“O evangelho de Cristo não conhece religião, que não seja religião social; Não conhece santidade, que não seja santidade social.”. (John Wesley).

Hebert Borges
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Hebert Borges

Muito bom esse texto e ainda bastante atual. Uma ótima resposta também para o Yago Martins, teólogo de dois dedos de teologia, que recentemente, de modo generalista, também soltou pesadas críticas a TMI.

Elias Ferreira
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Elias Ferreira

Texto muito bom! A resposta melhor ainda! Soli Deo Glória!

Jorge
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Jorge
Luiz Carlos Ramops
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Ótima resposta,
que explicita as falácias de quem usa a mentira para defender sua verdade ideologicamente condicionada/contaminada.
E, a bem da verdade verdadeira… preciso complementar este comentário dizendo que a mesma contra-argumentação serve para a crítica que levianamente se faz à Teologia da Libertação (e acho que esse pecadinho a TMI também deve confessar).
Abraço,
Reverendo Luiz Carlos Ramos
(Igreja Metodista de Pirassununga)

Edenis Cesar de Oliveira
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Edenis Cesar de Oliveira

Resposta clara, objetiva, despida de provocações! É, de fato, sugestivo que o pastor em questão estude mais sobre MI antes de se pronunciar de forma rasa e pouco ou nada contributiva com a essência do evangelho!